Marcado: livros

O pomo de ouro do eterno desejo // Kundera

DSC01871

Em minha última madrugada insone recebi a mensagem de uma amiga com uma brincadeira. Ela, escritora e minha fonte eterna de boas recomendações literárias, havia recebido a corrente: “abra na página 45 o livro mais próximo e a primeira frase será a explicação para sua vida amorosa”. Claro que ninguém leva essas coisas a sério, mas abri o livro de contos “Risíveis amores”, do Kundera, que havia acabado de ler algumas horas antes e que ainda dividia a cama comigo. Kundera é um forte candidato a ser meu autor favorito, e com certeza é o que mais me proporciona o sentimento de identificação com seus textos. A página 45 era justamente o título de um dos meus contos prediletos, “O pomo de ouro do eterno desejo”.

Eu continuava a refletir sobre aquela bandeira. Pensei que o alvo da busca, com o decorrer dos anos, passa a ser cada vez menos as mulheres e cada vez mais a busca em si. Com a condição de que se trate de uma busca antecipadamente inútil, pode-se a cada dia buscar um número infinito de mulheres e dessa maneira fazer da busca uma busca absoluta. É: Martim se situava na posiçãoda busca absoluta.

(…) Martim não é mais jovem, pensei ainda. Ama fielmente sua mulher. Na verdade, leva a vida conjugal mais bem-comportada que existe. Essa é a realidade. E acima dessa realidade, no nível de uma ilusão inocente e tocante, a juventude de Martim continua, juventude inquieta, turbulenta e pródiga, reduzida a um simples jogo que não chega a atravessar os limites do seu campo de batalha para alcançar a vida e se tornar realidade. E como Martim é o cavaleiro cego da Necessidade, dá a suas aventuras a inocência do Jogo, sem ao menos se aperceber disso; continua a depositar nelas todo o ardor de sua alma.

Martim foi um dos personagens que certamente me fizeram me entender melhor. Esquecendo a corrente, minha identificação com M. supera o campo amoroso e se aplica a quase todos os outros da vida. A eterna inquietação da busca infinita para alguém que, fora de suas fantasias, poderia perdurar (inteiramente) em uma calmaria real. Mas afinal, o que fazer com a parcela de desejo, com o querer que te move muito mais espiritual que pragmaticamente? Martim, por sorte, nunca percebeu seu dilema e seu engano. Por sorte, ele não lia Kundera.

“Por que não?”, disse Martim. “Tudo é possível”, e estávamos novamente em plena discussão. O plano se definia de minuto em minuto, em breve iria balançar diante de nossos olhos, na noite que começava a cair, como um belo pomo maduro e radioso.

Permitam-me que chame esse pomo, com certa ênfase, o pomo de ouro do eterno desejo.

A força tenra de Nobuyoshi Araki

O fotógrafo japonês Nobuyoshi Araki lançou mais um livro depois do bem sucedido “Tokyo Lucky Hole”, o “Araki by Araki”, que reúne algumas décadas de suas intensas fotografias. Conhecido principalmente por seus retratos sobre o kinbaku-bi (a arte japonesa da “servidão”, onde as mulheres ficam presas por amarrações), Araki mantém sempre um olhar sensual e forte sobre qualquer tema que aborde. Obcecado pela forma feminina, transfere a voluptuosidade de suas curvas para as das flores sempre exuberantes e coloridas, tema também recorrente em suas fotografias, assim como as brancas ruas de Tokyo, sempre retratadas através de muita delicadeza.

O erotismo presente em seu trabalho talvez se torne um pouco chocante para alguns (principalmente os ocidentais), mas Araki sempre exprime uma espécie de ternura em suas imagens, seja através das cores ou do olhar captado de suas modelos. Sua fotografia é a representação de seus instintos. Por reagir tão intensamente a suas próprias emoções e desejos, sem medo deles ou de mostra-lo para o mundo, esse artista se torna extremamente genuíno – na minha concepção. Alguém que realmente usa sua arte para experienciar mais inteiramente qualquer sentimento que se tenha.

algumas fotos [lindas] do livro “Araki by Araki”

Araki: “They all have their own charms. But often they themselves aren’t even aware of their charms, so you have to discover it and present it to them, like, “This is it!” They’re radiating all this aura, so your job is to pump up that aura even more and give it back to them by capturing it on film. That’s how I approach my work.”

Livros que não li de filmes que vi

[voltei!!]

filmeslivros

Recentemente a Darkside Books lançou uma edição linda de Psicose, história que Hitchcock usou de base para fazer a adaptação para o cinema. Assim que a vi parei pra pensar COMO nunca tinha lido aquele livro que deu origem a um dos meus filmes favoritos e ai me toquei de quantos filmes bons assisti mas nunca li o livro que foi usado de inspiração para o roteiro. Decidi então fazer minha primeira lista do ano: “livros que não li e geragam filmes que vi, para acabar em 2014”. [quem não ama listas? haha] Então, meus escolhidos foram:

Psicose * Esse é o que estou mais ansiosa pra ler; Hitchcock é meu diretor favorito e Psicose foi o primeiro filme dele que vi! Também foi um dos primeiros filmes realmente bons que assisti, quando ainda estava começando a descobrir cinema, e isso me fez adorar ainda mais essa história. Tenho certeza que também vou gostar muito do livro do Robert Bloch, como adoro qualquer coisa relacionada ao filme.

O iluminado * Um dos meus filmes favoritos de suspense e dirigido por outro cara que acho demaaais: Stanley Kubrick. O livro que originou o filme é do Sthephan King, e esse é o único motivo que não o li até agora. Na verdade nunca li nada dele, mas sempre tive a impressão de que iria achar seus livros meio  parecidos com os de uma coleção que lia quando tinha uns 14 anos, chamada Rua do Medo, então os ignorei simplesmente por não querer “””retroceder””” pra uma literatura mais infantil. Mas ok, vou deixar meu preconceito de lado por esse livro.

Laranja mecânica * Se tem um tipo de literatura que eu amo são as distopias! Também já vi muita gente falando bem desse livro, ao que parece sou a única pessoa no mundo que ainda não o leu. Outra obra cinematograficamente adaptada pelo Kubrick, o livro original é de Anthony Burgess e foi lançados no início dos anos 60, o que pra mim faz ele ser mais incrível ainda já que fala de uma sociedade à frente de seu tempo.

Clube da luta * Apesar de amar o filme (dirigido por David Fincher), não estou tão ansiosa para ler esse livro quanto gostaria. A história original é do Chuck Palahniuk, que é super posto em alta por todos, mas que eu tenho trauma por causa do único livro que li dele, “Condenada”. Achei tão ruim que fiquei com raiva de ter perdido meu tempo terminando a leitura. A única explicação que vejo para isso é: escolhi o pior livro do cara para começar a conhece-lo. Espero mudar minha opinião sobre o autor, até porque adoro essa história.

O poderoso chefão * Fala sério, uma das trilogias mais fodas de todos os tempos né? Geralmente detesto sequências, mas a da família Corleon conquista qualquer um  na minha opinião. Filme do Coppola, outro amorzinho meu, e livro do Mario Puzo. Acho que vou gostar de ler essa novela mas preferir o filme.

Precisamos falar sobre kevin * Amo esse filme, amo a interpretação dos atores (com Tilda Swinton e Ezra Miller), as cores usadas, a fotografia, tudo! Tenho a impressão que vou gostar tanto do livro do Lionel Shriver quanto gostei do filme, dirigido por Lynne Ramsay.

Um estranho no ninho * Faz algum tempo que assisti esse, mas ele foi bem marcante. Foi o primeiro filme que vi com o Jack Nicholson e já ai parei e pensei “ca-ce-te que puta ator”. Acho que a história deve ser ainda melhor lida do que vista no cinema. O filme tem direção de Milos Forman e o livro é da autoria de Ken Kesey.

Virgens suicidas * Não me canso de ver as irmãs loiras repetidas vezes quando estou sem disposição pra escolher um filme novo, acho que ele é muito sensível e trata de coisas pesadas de uma maneira extremamente suave. Apesar de achar que vou gostar mais do filme da Sophia Coppola nesse caso (principalmente pela fotografia e trilha sonora do Air), acho que também vou curtir o livro, que é do Jeffrey Eugenides.

O escafandro e a borboleta * Outro filme que me conquistou pela sensibilidade e pela fotografia. Assisti em meados de 2008 e desde então se alguém me perguntasse qual filme me fez sentir melhor o que o personagem sentia, seria esse. Achei a atuação de Mathieu Amalric tocante de verdade. A direção é de Julian Schnabel e o livro (biografia) que eu espero gostar tanto quanto é de um jornalista chamado Jean-Dominique Bauby.

Garota interrompida * Li um capítulo desse livro em uma livraria e achei idêntico à cena do filme nos mínimos detalhes,  isso na verdade me fez repensar um pouco essa escolha já que não sei se a leitura vai realmente trazer algo novo.. Masss gosto bastante do filme e decidi deixar o livro aqui na lista, até porque é bem pequeno. O filme tem direção de James Mangold e o livro foi escrito por Susanna Kaysen.

Eu receberia as piores noticias dos seus lindos lábios * Não gostei muito desse filme quando vi, mas assisti em uma qualidade super baixa e num dia péssimo, acho que isso influenciou. Adoro esse título e mesmo que não tenha gostado tanto do filme (ou não tenha prestado atenção nele direito, não sei) lembro de pensar que a história ficaria bem melhor em um livro. Diretores: Beto Brant e Renato Ciasca / Autor e roteirista: Marçal Aquino.

Romeu e Julieta * Ok que isso na verdade é uma peça e eu nunca a assisti, mas já vi tanto o R&J antigo dos anos 60’s quanto aquela parodia mais atual com Leonardo DiCaprio (amo esse filme) e ainda não tinha lido a peça. Esse foi o único da lista que li até agora.

Bluebird [Bukowski]

Lá pelo meio do ano comprei esse livro mas só consegui lê-lo agora que fiquei de férias da faculdade e relaxada o suficiente para ler poesia. Ele é uma seleção de poemas do Bukowski feita e [muito bem] traduzida pelo Fernando Koproski. O livro é dividido em 3 partes por temática, a primeira se chama “Há um lugar no coração“, basicamente são poemas sobre mulheres que o Buk já teve: amores, putas e loucas. A segunda  se chama “Este é meu plano“, fala sobre o ato de escrever e a relação do próprio Bukowski com a poesia, é uma coisa bem metalinguística. Já a terceira parte, minha favorita, se chama “Como uma lua alta sobre a impossibilidade“, é difícil definir um tema mas eu a vi como algo mais existencial e da relação do próprio “eu”.

O velho safado realmente me surpreendeu com sua sensibilidade em alguns desses poemas. São uns 50 no total e eu marquei 8 deles que me tocaram de uma maneira muito delicada. Um deles é o “Bluebird”, que abre a terceira parte do livro. Ele foi o poema que melhor me fez entender o autor e me fez ver um lado que eu não imaginava dele, além de falar de um sentimento que eu nunca tinha realmente parado para pensar sobre antes, mas julgo ser familiar a muitas pessoas.

(…)
em meu coração há um pássaro azul
que quer sair
mas eu sou mais esperto, só o deixo sair
de noite, às vezes
quando todos estão dormindo.
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí ponho ele de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme juntos desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e isso é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

(vi esse vídeo do Buk recitando Bluebird, se alguém quiser escutar fica bem legal o jeito que ele próprio entoa os versos)

Esse poema realmente me despertou um lamento muito grande. Fiquei imaginando como seria miserável viver nessa contradição de não assumir uma característica sua, um traço de personalidade, um sentimento que se tem, ou qualquer coisa assim por medo do que isso causaria se viesse a superfície do seu eu, mas ao mesmo tempo, ser tão apegado a essa coisa, ou lado, ou vontade que simplesmente não se consegue nem sequer tentar mata-lo. E olha que não conseguir mata-lo tentando já é algo bem triste.

Porque, afinal, quando não gostamos de algo, abarreira que costuma nos dificultar a mudança é o hábito que se tinha de praticar o que já não é querido, então não há pena em se matar isso porque não há apego verdadeiro. Mas ser tão apegado assim à coisa para preferir viver de migalhas, saudades e tristezas em vez de simplesmente viver sem isso é algo realmente infeliz. Pela minha interpretação, o Buk se referia a seu Bluebird como sendo seu lado mais sensível, brando, dócil talvez… Características não demonstradas em seus textos e que ele teria medo que se expostas mudassem o jeito que as pessoas o olhassem e ao seu trabalho. (ex. trecho: “fica na tua, você quer me ver em apuros? / você quer sacanear com a minha obra? / acabar com minha venda de livros na Europa?”)

Acho que se tratando de como se lida com seu próprio eu, o caminho mais curto para a infelicidade é ser miserável com os próprios os sentimentos e suas consequentes vontades. Também não acho que a highway para a felicidade seja a abundância da satisfação dessas vontades, afinal racionalidade é fundamental para evitar que caiamos em nossas próprias armadilhas, e para mim um pouco de tristeza e/ou incorformismo fazem pare de uma vida feliz. Mas acho que a plenitude, essa sim, deve ser buscada. Ter coragem para viver com o que realmente se quer, ou pelo menos na melhor das piores hipóteses ter coragem de arrancar isso da sua vida por completo – take it or leave it. Tenho a impressão de que quem faz escolhas apenas “confortávéis”  sempre terá uma vida cheia de “e se”s. Quem sempre busca refúgio em suas escolhas não terá mais do que um refúgio. E há sempre tanto mais do que imaginamos serem as possibilidades.

Depois de toda essa viagem e de ter escapado totalmente do objetivo dessa postagem, vou fechar bruscamente com uma citação do Manoel de Barros porque tô atrasada e esse texto já não tem mais conserto hahaha

Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade, caça, jeito.