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O pomo de ouro do eterno desejo // Kundera

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Em minha última madrugada insone recebi a mensagem de uma amiga com uma brincadeira. Ela, escritora e minha fonte eterna de boas recomendações literárias, havia recebido a corrente: “abra na página 45 o livro mais próximo e a primeira frase será a explicação para sua vida amorosa”. Claro que ninguém leva essas coisas a sério, mas abri o livro de contos “Risíveis amores”, do Kundera, que havia acabado de ler algumas horas antes e que ainda dividia a cama comigo. Kundera é um forte candidato a ser meu autor favorito, e com certeza é o que mais me proporciona o sentimento de identificação com seus textos. A página 45 era justamente o título de um dos meus contos prediletos, “O pomo de ouro do eterno desejo”.

Eu continuava a refletir sobre aquela bandeira. Pensei que o alvo da busca, com o decorrer dos anos, passa a ser cada vez menos as mulheres e cada vez mais a busca em si. Com a condição de que se trate de uma busca antecipadamente inútil, pode-se a cada dia buscar um número infinito de mulheres e dessa maneira fazer da busca uma busca absoluta. É: Martim se situava na posiçãoda busca absoluta.

(…) Martim não é mais jovem, pensei ainda. Ama fielmente sua mulher. Na verdade, leva a vida conjugal mais bem-comportada que existe. Essa é a realidade. E acima dessa realidade, no nível de uma ilusão inocente e tocante, a juventude de Martim continua, juventude inquieta, turbulenta e pródiga, reduzida a um simples jogo que não chega a atravessar os limites do seu campo de batalha para alcançar a vida e se tornar realidade. E como Martim é o cavaleiro cego da Necessidade, dá a suas aventuras a inocência do Jogo, sem ao menos se aperceber disso; continua a depositar nelas todo o ardor de sua alma.

Martim foi um dos personagens que certamente me fizeram me entender melhor. Esquecendo a corrente, minha identificação com M. supera o campo amoroso e se aplica a quase todos os outros da vida. A eterna inquietação da busca infinita para alguém que, fora de suas fantasias, poderia perdurar (inteiramente) em uma calmaria real. Mas afinal, o que fazer com a parcela de desejo, com o querer que te move muito mais espiritual que pragmaticamente? Martim, por sorte, nunca percebeu seu dilema e seu engano. Por sorte, ele não lia Kundera.

“Por que não?”, disse Martim. “Tudo é possível”, e estávamos novamente em plena discussão. O plano se definia de minuto em minuto, em breve iria balançar diante de nossos olhos, na noite que começava a cair, como um belo pomo maduro e radioso.

Permitam-me que chame esse pomo, com certa ênfase, o pomo de ouro do eterno desejo.