Marcado: crônicas

Meio na contra mão, mas sempre no bom caminho

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Fotos da série “Iréel”, por Flora Borsi. Para ver as outras só clicar aqui.

Todo nove de agosto sinto pesar a sensação de ter que dar um veredicto final sobre mim mesma, afinal, mais um ano correu comigo tentando conhecer e entender melhor o que se passa além das minhas entranhas. O que meu âmago grita? Sempre acho que cheguei a minha definição final, e sempre mudo de ideia no dia dez. Aos 21 anos percebi que a única coisa definitiva em mim (por enquanto, quem sabe) é a mudança, o deslocamento, a quebra. É estranho, ser nômade dentro de si mesma.

Na minha calma opressiva minha alma se atrita com o que não cabe na moldura, mas suporta. Fazer o quê, gosto do novo, do escambo, do possível. Quero o que está diante dos meus olhos, e o que se mantém além deles. Arrisco, petisco e desgosto, às vezes logo, às vezes não. Vontades tão repentinas quanto vitais, que acabam me levando sempre a mais uma surpresa – dentro de mim. E até que alguma certeza me atropele ou floresça por aqui, continuo fiel aos meus instintos. À minha maneira de ser alguém real.

Andando em curvas, meio na contramão, mas sempre no bom caminho.

M

Rapunzel, corte suas tranças

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– Eu realmente acho que no mundo existe aquela única pessoa, especial, sabe? A que chamam de amor da vida, insubstituível.
Olhei pra baixo e comi mais um sushi. Não entendo como peixe cru com arroz gelado faz tanto sucesso, mas entendo menos ainda como alguém pode pensar assim.
Reparo no silêncio e levanto meus olhos, esbarro em outro par me fitando com um misto de confusão e indignação.
– Você não acha? Acha que é tudo a mesma merda?
– Não, penso justamente o contrário. Sempre vai haver mais de um “alguém especial”, você só precisa encontrar.
– Isso tudo é porque não fomos no restaurante mexicano?
Na dúvida se a conversa continuava no campo geral ou estava progredindo para se tornar algo pessoal, achei que a melhor resposta era pedir um mate. Nossa, tudo que eu precisava era um mate de limão depois de um dia escaldante – e sufocante – na praia.
O Leblon está cada dia mais lotado. Lotado de gente de todo tipo. Como alguém que vê isso, esse mar de pessoas novas todo dia, pode pensar que só há uma metade da laranja em todo mundo afora? Só uma pessoa que te “complete”? Quero dizer, existem bilhões de seres humanos no planeta. Bilhões mesmo.
– Acho que você ainda vai mudar de idéia.
– Espero que sim. Acho que aconteceu de eu mudar algumas vezes na verdade.
– Ou não.
– Talvez.
É, meu pessimismo não me deixaria colocar muita fé nos resultados de uma loteria com bilhões de possibilidades, mas com certeza não me impediria de apostar. Quem foi mesmo que me disse que eu sou uma garota de sorte?

Passado: o tempo do inconformismo

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Às vezes é fácil confundir o que era com o que é. A principal prova de que o tempo existe (e passa) é a mudança, e é ela também a melhor maneira de definirmos onde cada parte da nossa vida – lugares, idéias, pessoas –  deve se resignar: presente, passado ou futuro.

O passado por vezes se comporta como alguém que abriga dentro de si recalques sublimantes. Como não? Entre todos, aquele que “já foi” é o único tempo em que esperança não cabe. Passado é para onde vão os ciclos encerrados, as viagens acabadas, os sentimentos mortos, as oportunidades perdidas. Não há chance de mudança e por isso mesmo também é o tempo do incorformismo.

Hesitamos tanto em aceitar que algo pertence ao passado porque isso significa, inevitavelmente, ter de abandonar, deixar ir. Aliás, deixar não, porque não há o que se deixar. O passado é uma mão forte, leva sem precisar de permissão. Por mais que se queira, ninguém nunca vai viver uma mesma situação duas vezes, ela sempre estará modificada, para melhor ou pior. Não se pode resgatar o que não está ao nosso alcance, o que não existe mais. Quando algo está no passado deixa de existir, vai pra outra dimensão.

O futuro um dia se tornará presente, por isso se apropria de grande parte da nosso imaginário: é onde encontramos planos e ansias. O presente é o único tempo realmente passível de ser vivido – não o presente instantâneo, um único segundo, mas sim o momento em que se está imerso. E o passado? O passado deve ser como alguém que entrou na sua vida, te ensinou algo – ou não, mas nesse caso geralmente não nos lembramos dele – e morreu. Assim como ninguém deve abrir covas para reviver mortos, também não se deve tratar coisas passadas como ainda presentes – o máximo que você vai encontrar será apenas um esqueleto. O que era antes, agora, corroído pelo tempo.

O mundo muda, as pessoas mudam, você muda. Pelo menos, espero que mude.